quinta-feira, 14 de março de 2013

Da floresta também brota poesia



Nesta quinta-feira (14) comemora-se o Dia Nacional da Poesia. Para celebrar a data, a Biblioteca da Floresta, órgão ligado à Fundação de Cultura Elias Mansour (FEM), conversou com dois poetas acreanos sobre suas experiências com uma das manifestações artísticas mais tradicionais da história.

O que Suellen Verçosa e Raimundo Nonato têm em comum é apenas a poesia - e o talento para tal. Este é poeta experiente, autor de livros e conhecedor da filosofia e das letras. A outra é uma jovem aspirante a poeta, daquelas cuja vida e sentimentos, ocasionalmente, servem como inspiração para seus versos.

Hoje, às 16h, Nonato participa de um recital de poesias na biblioteca, onde declamará alguns de seus versos preferidos. O ato é aberto ao público.

Leia, a seguir, a entrevista com os dois poetas e conheça suas histórias e o que pensam sobre seus versos. Confira também, ao final de cada texto, uma de suas poesias de destaque.


Raimundo Nonato quebrou barreiras para assumir-se poeta

Nonato escreveu seus primeiros versos aos 17 anos
Raimundo Nonato escreve poemas por inspiração. Não sofre crises criativas, pois não se força a escrever, e desenvolve poemas sobre temas que o tocam, sejam eles sentimentais ou sociais. Por meio da Lei de Incentivo à Cultura, publicou, em 2006, seu primeiro livro, “As curvas do rio da vida”.

Seu primeiro poema foi escrito aos 17 anos como forma de desabafo às incertezas vividas durante a Ditadura Militar, mas só após os 50 anos, com o final de seu casamento, Nonato voltou a escrever.

Mesmo com a enxurrada de poemas que lhe vinham à cabeça e que imediatamente colocava no papel, assumir-se como poeta e dedicar-se à burocracia que uma publicação exige foram seus obstáculos. “O Raimundo Nonato poeta vivia na sombra, publicando um livro. Teria que aparecer e eu tinha medo de escrever besteira”, admite.

Apesar do medo, a vida conspirava a favor da publicação dos poemas. Um dia, desafiou-se determinando que os publicaria se encontrasse “Diante de Deus”, um poema que havia escrito em um papel de embrulho, durante a contemplação do pôr do sol. Pouco tempo depois da promessa, cinco anos após ter escrito os versos, encontrou a poesia em uma gaveta do armário.

Com o apoio de amigos e a aprovação do projeto, o livro foi lançado em setembro de 2006. Com as edições na mochila, Nonato saiu pelos bares e restaurantes da cidade recitando seus versos para convencer até mesmo quem dizia não gostar de poesia. Nesse processo, vendeu cerca de 600 edições antes do fim daquele ano.

“Naquele momento, descobri o poder da poesia. O poeta canta a vida e é um cidadão consciente do seu tempo”, disse. Entre seus poetas favoritos está o português Fernando Pessoa, autor de “Tabacaria”, poesia que inspirou Nonato a escrever “Conflito”. (Por Anaís Cordeiro)

Conflito II
Não sei porque nada sou
Não sou porque nada sei.
Assim, não sendo
E nada sabendo
Certamente não serei.
Certo, eu quisera saber
Porque não está em mim
Coisa alguma querer ser.
Só sei que em nada sendo
Porquanto nada sabendo
Certo que não saberei
Se um dia algo serei.
É certo que, certamente
Sem nada ser, evidente
Dificilmente eu serei
Nada sabendo, consequentemente
Eu quisera, certamente
Saber mais que, evidente,
Me é concedido saber
No certo tempo presente
Mas quanto mais me aventuro
No universo obscuro
Do infindo conhecer
Tanto mais eu me convenço:
Entre o que sou e o que penso
Há um infinito imenso...
Sei que jamais saberei
Se quero ser, ou serei
Sendo assim, um contrasenso.
Queres ao certo saber
Se quero ser ou serei?
Só sei responder-te assim:
Sinceramente, não sei.
“Só sei, que nada sei...”

(Raimundo Nonato)
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Suellen Verçosa: da tristeza fez poesia

Verçosa é professora de biologia e poeta nas horas vagas
Graduada em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Acre (Ufac), a jovem Suellen Verçosa é dona de um grande talento com a escrita, se destacando por meio da poesia.

A paixão pelas letras começou quando ainda era uma garotinha, aos 10 anos de idade, quando leu um pequeno livro de poesias na escola. Após esse contato, ela conta que amou aquela forma de escrita e começou a “imitar” o estilo poético do autor.

Mesmo não tendo a poesia como instrumento profissional, a escrita tem um grande valor na sua vida, pois “é uma forma de refugio. Geralmente, escrevo quando estou triste. Então acredito que minha maior inspiração venha da tristeza. O drama me inspira”, afirma Suellen.

Professora da rede pública de ensino, Verçosa é admiradora de vários poetas, muitos deles anônimos, cujos trabalhos são encontrados na internet. Ela destaca a portuguesa Florbela Espanca como outra importante fonte de inspiração.

Suas poesias são publicadas no seu blog “Tão frágil como a porcelana”, que mantém desde 2006. A página não é constantemente atualizada, mas é um local onde ela compartilha seus pensamentos e escritas.

Verçosa foi classificada no Prêmio Garibaldi Brasil de Literatura Acreana, promovido em 2008 pela Fundação de Cultura de Rio Branco. Sua poesia favorita, “Do Poeta Fiz Poesia”, foi publicada no livro Nova Literatura Acreana, que reúne outros 29 trabalhos.

“Acredito que ser poeta é estar dividido entre o sonhar e o sentir”, essas foram as palavras de Suellen para explicar seu dom. (Por Pryscila Thays)

  
Do poeta fiz poesia
O poeta é um aventureiro...
Em palavras;
Em gestos;
Em traquejos;
Aquele que sofre sem haver dor
Com palavras acompanhadas de lágrimas.
O mero movimento da caneta em entremeio de seus dedos
Que partem de um sentimento
Nem sempre de amor
Nem sempre de dor.
O poeta é um eterno escritor inveterado e apaixonado.
Que não tira a alma da balança
Que rega seus dias a versos
Sejam eles de alegria ou esperança.
O poeta não aprendeu com o mundo a arte de escrever
Ele procura no fundo de seu "eu" uma forma de permanecer
Que os papéis acabem, apodreçam, rasguem
Mas o sentimento em verbo seja um alforje ao vento
O poeta é aquele que se estilhaça diante das pessoas
Que tira seus adereços
Se despe das vestimentas mundanas
Mas que nem sempre é compreendido
O poeta toma para si as dores do mundo
Indigna-se com as injustiças
E transcreve em seus múrmuros
Toda a verdade que não foi dita
O poeta é um gênio não declarado
Que mesmo na amargura descrita
Não corrompe o seu sorriso
Transforma sua imagem em um nome
Troca sua cela por uma imensidão de frases
Vezes sem nexo
Repletas de criatividade floradas em sua vida
Que permite que as cores invadam seu dia
Mas o poeta é humano
Tão mortal ser
Que permanece em palavras
Muitas vezes não publicadas
Mas que a cada ano
Envelhece como todos os demais
E quanto mais o tempo passa
Mais ele parte ao encontro dos anjos
E tão breve como qualquer mortal
Ele se vai


(Suellen Verçosa)

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