(Parte I)
TEXTO DE LIBÉRIO SOUZA, Diretor do Patrimônio Histórico do Acre.
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“O Acre é a grande conquista do seringueiro, o seu lar certo dia ameaçado e defendido com ‘sangue suor e lágrimas”.
Leandro Tocantins
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Minha memória empresta cenas como se tudo tivesse acontecido há apenas alguns dias, no máximo alguns meses. Refiro-me a maio de 2002 quando visitei e conversei longa e atentamente com o advogado, jornalista e historiador, por opção, Leandro Goes Tocantins no seu apartamento, em Laranjeiras, na cidade do Rio de Janeiro. Sinceramente não tinha noção de que pessoa encontraria pela frente. Sem julgamentos prévios, é claro.
Após contato anterior segui para o endereço informado. De repente me deparei com um sujeito de 83 anos, muito educado, olhar firme, lúcido e sereno. Como falo muito, logo quebrei o gelo. O propósito naquela oportunidade (o Governo o Estado celebrava o centenário da ‘Revolução Acreana’), era levar o convite do então Governador Jorge Viana para que Leandro viesse a Rio Branco palestrar sobre suas pesquisas e obras referentes à nossa história e, ao mesmo tempo, homenagear o escritor, proporcionando para a comunidade acadêmica e demais segmentos interessados da sociedade, um evento onde todos pudessem igualmente não apenas conhecer o autor (de Formação Histórica do Acre) de perto, mas absorver a essência da obra através das sua própria fala e depoimento. A conversa fluiu e quase não teve fim. Ele prontamente aceitou o convite afirmando: “Nunca esqueci o Acre, fiz bons amigos lá e sempre fui muito bem recebido”. Nunca esqueci a frase.
Como o diálogo se alongou, ele resolveu perguntar se eu conhecia suas obras. Não hesitei e respondi que sim imaginado que ele se referia à Formação Histórica do Acre (obra que já li pelo menos três vezes); Euclides da Cunha e o Paraíso Perdido; Estado do Acre: Geografia, História e Sociedade e O rio comanda a vida, não muito mais que isso. Eis que, em seguida, pediu licença do ambiente em que estávamos e retornou com um calhamaço de livros. Confesso que fui pego de surpresa e não tendo outra saída, perguntei: “Tudo isso é sobre o Acre? Pacientemente comentou sobre algumas obras e revelou um número surpreendente de publicações. Lembrou repentina e enfaticamente que estava concluindo a produção do seu mais novo livro (se não me falha a memória intitulado: Alcance da Vida). Também falaremos depois sobre isso.
Entretanto, como não é sobre a obra em si que vamos tratar, deixemos para outra oportunidade a intenção latente de falar especificamente sobre o assunto. Haverá tempo e momento oportuno para fazê-lo, mas em outra ocasião. O certo é que acometido por sérios problemas de saúde (que o mesmo tratou de manter reservada e sigilosamente) a sua vinda ao Acre não se concretizou. Certamente seria a última visita. Dias depois lamentou por telefone e agradeceu gentilmente o convite que lhe havia sido feito.
E hoje (coincidentemente também no mês maio, mas oito anos depois), me deparo agora mergulhado juntamente com a equipe do DPHC e da Biblioteca da Floresta entre livros, correspondências pessoais e oficiais, fotografias, objetos de uso pessoal, ilustrações, slides, negativos e dezenas de outros papéis que outrora estiveram sob o domínio, investigação e servindo em mãos como objeto de reflexão para o escritor Leandro Tocantins. Vivencio exatamente o que minha profissão oportunamente me oferece realizando o que todo pesquisador gosta de fazer. Digo isso por que nos últimos anos tenho destinado longos momentos do meu tempo às leituras e releituras de textos e obras acerca da nossa complexa, mas instigante historiografia.
É claro e evidente que não há concordância nem aceitação sobre tudo o que foi produzido ou que de alguma forma tivemos a oportunidade de acessar ao longo de várias pesquisas, estudos e reflexões. Temos nossas próprias visões, convicções e referenciais. Todavia, mantemos o principio do respeito aos outros olhares e abordagens, divergentes ou que segam outra linha de raciocínio.
Independentemente disso e retomando a história do volumoso material exposto sobre as mesas, cadeiras, armários e caixas-arquivo, nos vêm à lembrança imediata a proposta do professor Marcos Afonso (diretor da Biblioteca da Floresta) de trazermos para o Acre o acervo bibliográfico do referido escritor. Não tinha muito que dizer ou fazer a não ser concordar com a idéia já que ela era muito atraente e resultaria no enriquecimento do nosso acervo sobre a Amazônia. Embora desconhecesse a qualidade do material existente. Afinal de contas qual dentre os escritores se debruçou com tamanha profundidade, esforço e afinco, dedicando tanto tempo da sua vida à pesquisa, produção de conhecimento e publicação sobre a região? E sobre o Acre, especialmente?