Hoje é dia da amizade! Por esse motivo, reproduzimos a matéria do
jornalista e moderador da Sociedade Philosophia, Leandro Chaves, que expressa
os mais profundos sentimentos de amizade do homem com a floresta.
Imersão da Sociedade Philosophia reuniu membros do grupo e funcionários
da Biblioteca da Floresta no Seringal Cachoeira
O pensador grego
Heráclito de Éfeso escreveu, cinco séculos antes de Cristo, que “uma pessoa
entra num rio e, ao sair, tanto ela quanto as águas já estão mudadas, pois tudo
está em movimento e nada dura para sempre”. Mais de dois milênios após o
escrito, 40 jovens vivenciaram, no coração da Amazônia, o pensamento do
filósofo pré-socrático. Entre os dias 10 e 12, eles “mergulharam” nas matas de
Xapuri para conhecerem o tempo e o espaço de quem vive na floresta, da floresta
e para a floresta.
O projeto, chamado
Imersão no Seringal Cachoeira, é realizado pela Sociedade Philosophia – criada
em Rio Branco em 2008 para discutir de forma didática as ideias dos maiores
pensadores da história do mundo ocidental. A atividade visa o diálogo entre a
tradição (floresta e seus habitantes) e a modernidade (moradores das cidades).
Esta foi a quinta
viagem do grupo ao seringal onde viveu o sindicalista, ambientalista e
seringueiro Chico Mendes, assassinado em 1988. Participaram membros da
Sociedade Philosophia e funcionários da Biblioteca da Floresta, local onde o
grupo se reúne quinzenalmente, sempre aos sábados. Eles viram de perto a
imponência da maior floresta do mundo e conheceram a história e o modo de vida
da população local.
FORAM mais de 20
quilômetros de
caminhada pelas florestas do seringal
Durante a viagem,
foram realizadas quatro trilhas, totalizando mais de 20 quilômetros de
caminhada pela mata. Nos trajetos, guiados pelo seringueiro Nilson Mendes,
primo de Chico, o grupo descobriu curiosidades sobre plantas e animais e até
mesmo saudou a famosa samaúma, árvore gigante onde são necessárias quase 30
pessoas para abraçá-la.
A estagiária da
Biblioteca da Floresta Alana Araújo “mergulhou” nas matas do Cachoeira pela
primeira vez e declarou que a experiência fez “parte de uma história que quero
guardar por toda a minha vida”. Funcionária pública e moderadora de apoio da
Sociedade Philosophia, Marlete Lopes participou da imersão pela 4ª vez e afirma
sair fortalecida a cada viagem. “A Sociedade Philosophia supera seus limites”,
disse.
“Sem dúvida a imersão
mudou algo na vida de cada participante. Todos reencontraram sua identidade
após três preciosos dias de experiência filosófica, onde cultura, ciência e
sabedoria se entrelaçaram”, avalia o moderador-geral da Sociedade Philosophia,
o professor e jornalista Marcos Afonso, que também é diretor da Biblioteca da
Floresta.
O tempo e o espaço dos povos da
floresta
Nos Diálogos da Florestania, os jovens filósofos aprenderam sobre o
tempo e o espaço dos índios e seringueiros com Nilson Mendes e o secretário
para assuntos indígenas do Governo do Estado, Zezinho Yube, da etnia Huni Kui,
conhecida como Kaxinawá.
DIRETOR da Biblioteca da Floresta
Marcos Afonso
e o indígena Zezinho Yube no Diálogo da Florestania
Mendes foi aplaudido de pé ao contar a longa história de lutas entre
trabalhadores rurais e fazendeiros pela manutenção da floresta que abraça o
Cachoeira, local onde aconteceu o último grande empate contra o desmatamento.
“O nosso passado traz histórias de bem comum que proporcionou mudanças na
política do Acre e do Brasil”, considerou.
Já Yube explicou os contrastes entre viver na cidade e nas aldeias e
como faz para conciliar sua vida nos dois mundos: “Quando retorno à minha terra
sinto bastante as diferenças. Lá me considero livre, pois não preciso pensar em
como lidar com problemas do dia a dia, principalmente em relação ao trabalho.
Busco sempre fazer nas cidades aquilo que eu tenho o dever de ser na minha
aldeia”, concluiu o indígena.
Astronomia, cultura e radioamadorismo
Várias atividades complementaram a programação da imersão. O Grupo de
Astronomia Gama Hidra, por exemplo, participou pela quinta vez da atividade,
levando dois telescópios para observações dos astros. Já o Grupo de
Radioamadores do Acre compareceu pela primeira vez à imersão e lançou suas
ondas de rádio mundo afora, proporcionando comunicação com a Espanha, Portugal
e até mesmo o Paquistão.
PARTICIPANTES foram guiados pelas
trilhas pelo seringueiro Nilson Mendes
Apresentações musicais, leituras de poesias e contações de histórias e
piadas feitas pelos próprios participantes da viagem abrilhantaram a imersão,
que, de acordo com o coordenador Marcos Afonso, deve ganhar outras cinco
edições até o final deste ano.
Apoio à imersão
A 5ª Imersão no Seringal Cachoeira só aconteceu devido ao apoio de
pessoas e instituições como o Governo do Estado do Acre; Fundação de Cultura
Elias Mansour (FEM); Secretaria de Estado de Meio Ambiente (Sema); Secretaria
de Estado de Turismo (Setur); Secretaria de Estado de Extensão Agroflorestal e
Produção Familiar (Seaprof); Instituto Dom Moacir (IDM); Sidney Mendes, diretor
da Escola Estadual Sebastião Pedrosa; Luiz Paulo da Silva, diretor da Escola
Estadual ProfªClícia Gadelha; João Batista e Wanderson Souza, enfermeiros da
Secretaria de Estado de Saúde (Sesacre); Aires Pergentino e Jeferson
Vasconcelos, membros do Grupo de Astronomia Gama Hidra; André Bracciali, do
Grupo de Radioamadores do Acre; Associação dos Seringueiros do Seringal
Cachoeira e Elson Dantas, diretor do jornal Página 20.