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| Marianne visitou a Biblioteca com o pesquisador Jeff Hoelle |
A Biblioteca da Floresta/FEM
recebeu, na manhã da última terça-feira, 30, a visita da diretora do programa
de desenvolvimento e conservação tropical da Universidade da Flórida, nos
Estados Unidos, Marianne Schmink. Amiga do Acre há quase três décadas, ela esteve
acompanhada pelo pesquisador Jeff Hoelle, que estuda a cultura da pecuária na
região.
Schmink, que não visitava a
Biblioteca há pelo menos quatro anos, se encantou com a réplica da Casa do
Seringueiro, no segundo piso, e com as “Mensagens para o Futuro”, baseadas em
uma carta escrita pelo líder seringueiro Chico Mendes para os jovens do ano de
2120.
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| Lançado nos EUA há 20 anos, livro é resultado de pesquisa feita no Pará |
Foi durante esse trabalho que
Marianne tomou conhecimento da luta dos seringueiros acreanos contra o
desmatamento. O contraste entre a passividade dos povos tradicionais do Pará e
a resistência dessas mesmas populações no Acre diante do avanço da pecuária despertou
seu interesse em conhecer nosso Estado. A partir daí, a relação da pesquisadora
com o Acre passa a se confundir com sua biografia (saiba mais na entrevista abaixo).
Entre 1989 e 2004, ela desenvolveu
uma pesquisa juntamente com o ex-secretário de Estado de Fazenda, Mâncio Lima,
sobre a evolução econômica, social e cultural da capital acreana. O trabalho
virou livro e foi lançado em 2009 com o nome “Rio Branco: Cidade da
Florestania”.
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| A pesquisadora se encantou com as exposições da Biblioteca |
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| "Na Biblioteca existe o equilíbrio entre a história e a modernidade" |
Biblioteca da Floresta: Você lançou no ano
passado a edição brasileira do livro “Conflitos Sociais e a Formação da
Amazônia”, publicado nos Estados Unidos há mais de 20 anos. Fale um pouco sobre
a obra.
Marianne Schmink: O trabalho começou
nos anos 70, quando eu estava em Belo Horizonte pesquisando bairros operários para
meu doutorado. Eu era ligada à UFMG [Universidade Federal de Minas Gerais] e
eles começaram uma pesquisa na Amazônia sobre imigração para a região e eu fui com
a equipe para conhecer o sul do Pará. Era um período difícil, aconteciam muitos conflitos
por terra e a gente foi conversar com as pessoas para tentar compreender a
questão. Eu, particularmente, fiquei muito interessada em entender essa
história. Então a gente foi aprendendo e eu me surpreendi. A região parecia um
filme de “bang bang”. Começamos a voltar mais vezes nos anos seguintes para
acompanhar as mudanças, que foram muitas. Primeiro vieram os conflitos pela
terra, depois o garimpo, as madeireiras e, por último, as barragens. O cenário
estava ficando cada vez mais complicado e a gente tentava registrar e analisar essas
mudanças.
BF: Por isso o trabalho durou 15 anos...
MS: Exatamente. Foram 10 anos de pesquisa,
nos anos 70 e 80, e outros cinco para sintetizar o material. A gente fez, na
primeira parte do livro, a história da Amazônia, a política de desenvolvimento
e o surgimento dos movimentos de resistência. E depois a gente focou em São
Félix do Xingu, uma cidade ribeirinha muito pequena, de apenas dois mil
habitantes, que tinha uma estrada em construção, a PA-279. Depois da estrada, houve
muitas mudanças demográficas e socioeconômicas que transformaram o local em
mais uma efervescente cidade da fronteira no sul do Pará.
BF: Como começou sua relação com o Acre?
MS: Depois de fazer esse trabalho no
Pará eu me senti um pouco frustrada porque nossos estudos não ocasionaram
nenhum impacto na realidade daquele local. Apenas registramos os fatos em um
belo livro. E foi nessa época, mais precisamente em 1986, que eu comecei a ouvir
a história do movimento dos seringueiros no Acre e decidi conhecer o Estado e
Chico Mendes, que liderava o processo.
BF: Como foi seu primeiro contato com o
Chico?
MS: Eu procurei a Ufac [Universidade
Federal do Acre], na época o reitor era o Moacir Fecury, e ele fez o contato
com o Chico. Aí a gente foi à festa de aniversário de um ano do filho dele, o
Sandino, nas proximidades do seringal Cachoeira. Foi todo um esquema para
chegar ao local, nesta época a gente já sabia das ameaças de morte.
BF: E quais foram suas impressões sobre
ele?
MS: O Chico encantou todo mundo que o
conheceu e eu fui uma delas. Ele era uma pessoa muito poderosa pela
naturalidade dele de juntar todo mundo e tentar pensar em uma alternativa para
os problemas que eles enfrentavam, tudo com muita paz, bom humor e simplicidade.
Eu não tinha visto uma coisa assim no Pará. Lá parecia tão difícil de lidar, e
aqui, um Estado pequeno, tinha muitas pessoas com propostas alternativas. Pareceu-me
um lugar que valia a pena investir mais. Por isso eu comecei a trabalhar com o
pessoal daqui.
BF: Que trabalho foi esse?
MS: Primeiro treinamos um grupo de
pessoas da Ufac e de outros órgãos que trabalhavam com os seringueiros e os índios
e formamos uma metodologia interdisciplinar, de diálogo com o produtor rural. Logo
depois, na década de 90, após a morte do Chico, fundamos a ONG Pesacre [Grupo
de Pesquisa e Extensão em Sistemas Agroflorestais do Acre] com essas pessoas
treinadas. A partir daí eu comecei a não fazer mais pesquisas, e sim apoiar o
trabalho do pessoal que tava tentando fazer uma coisa diferente por aqui. Depois conseguimos um financiamento para
treinar mais gente. A ideia era apoiar os produtores rurais com um sistema mais
diversificado, melhorar a qualidade de vida deles de acordo com a história
deles, a visão deles, e não uma coisa imposta, de fora. Essa foi nossa visão.
Deste então, eu passei a vir ao Acre quase todo ano para acompanhar esses projetos.
BF: Você também é autora de um livro sobre
Rio Branco. Comente esse trabalho.
MS: A obra “Rio Branco, Cidade da
Florestania” foi feia em conjunto com Mâncio Lima Cordeiro, ex-secretário da
Fazenda, que na época era professor de Economia na Ufac. A gente fez um levantamento
econômico, social, cultural e histórico da cidade. Enquanto eu apoiava o
trabalho na área rural, havia também essa pesquisa na cidade, que depois
resultou no livro.
BF: Como você enxerga o Acre no contexto amazônico, levando em consideração
a luta dos movimentos sociais no campo na década de 80 e as recentes políticas
públicas locais de valorização das florestas?
MS: Para mim
tem sido muito gratificante acompanhar toda a transformação do Estado, a começar
pelas mudanças na infraestrutura até a forma de tratar os cidadãos, passando
pelo conceito de Florestania e pelo resgate da história cultural aliado ao
grande salto para a modernidade. Hoje eu vejo o quanto foi positivo o impacto
na qualidade de vida das pessoas na cidade. Na área rural as coisas também melhoraram
muito. Mas existem as contradições, como em qualquer lugar do Brasil. A visão que tínhamos naquela época
era a de que a floresta poderia manter as pessoas com diversificação de produção,
sem extração da madeira. Isso é muito mais difícil do que se esperava. Então, ainda
falta uma solução para a área rural. Depois da criação das Reservas Extrativistas
o Governo Federal acabou com os subsídios da borracha que vinham mantendo a renda do seringueiro. Isso foi um
golpe. A borracha já não sustenta mais todo mundo que mora nos seringais. Mesmo
assim, no Acre, vimos o Estado fazer de tudo para apoiar alternativas. Tem a
fábrica de preservativos Natex, a usina da castanha... O Acre é o Estado que
tem as propostas mais consistentes, não são políticas soltas. É uma visão do
desenvolvimento em tópicos, aliada a compromissos com a cidadania. Então eu
acho que o Acre é único nesse sentido. E um dos resultados é que não se tem um
impacto aqui como nós temos em qualquer outro lugar da Amazônia. O Estado é um
pequeno laboratório para o mundo. E aqui eu me sinto um pouco mais otimista.
Tem coisas boas acontecendo. Não perfeitas, mas propostas que a gente vê que
valem a pena investir.
BF: E quais são os principais desafios para
a Amazônia nesse sentido?
MS: O que mais me preocupa hoje é ver os
seringueiros mais jovens, que não participaram das lutas, não quererem ser
seringueiros. É natural as pessoas almejarem outras coisas. O grande desafio
agora é equilibrar o respeito à floresta e o resgate da história com o
consumismo, a urbanização, a chegada de outros valores... O [pesquisador] Jeff Hoelle
está estudando, por exemplo, a cultura da pecuária no Acre para seu doutorado.
A música, a roupa, isso está muito forte nos jovens. Isso também é uma coisa
que vem sendo imposta nos últimos 5 ou 7 anos. Então a gente vê as coisas
mudando muito com essas novas gerações. Outro ponto é a questão dos
assassinatos dos trabalhadores rurais, que continua. Como pode acontecer esse
tipo de coisa depois de décadas, em um Brasil hoje emergente no mundo? Isso é muito
frustrante.
BF: Gostaríamos que você comentasse suas
impressões sobre a Biblioteca da Floresta.
MS: Eu acho que essa Biblioteca, de
certa forma, retrata a memória do Chico Mendes e a memória da floresta. Gostei
muito dessa ideia de apresentar às pessoas um espaço-memória no meio da cidade.
É um lugar muito bonito, moderno e bem equipado, onde caminham juntos os dois
sentidos: a história e a modernidade. Existe uma tensão permanente entre o
passado e o presente, que é essa modernidade, o consumismo e a tendência de
todo mundo ser igual e ter as mesmas coisas. Mas aqui é diferente, sinto um
equilíbrio.
(Por Leandro Chaves)



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