Sociedade Philosophia
e Biblioteca da Floresta/FEM realizam 6ª Imersão no Seringal Cachoeira como
forma de homenagear o líder seringueiro e ambientalista acreano
A Imersão ao Nosso Tempo e Espaço Originais, uma atividade didática
e psicofilosófica inédita no Acre, ganhou, nesta semana, sua sexta edição. Cerca
de 35 pessoas passaram três dias (21, 22 e 23) nas matas do Seringal Cachoeira,
em Xapuri, a quase 200 quilômetros de Rio Branco, exercitando o diálogo entre a
tradição dos povos da floresta e a modernidade da vida na cidade.
Promovido pela Sociedade Philosophia, grupo que, há cinco
anos, se reúne na Biblioteca da Floresta/FEM para discutir as ideias de homens
e mulheres que contribuíram para a formação do pensamento filosófico ocidental,
o projeto fez parte, neste ano, dos “25 anos: Chico Mendes Vive Mais” – um
conjunto de ações a serem promovidas ao longo de 2013 por entidades
governamentais e não governamentais para celebrar os ideais do seringueiro,
ambientalista e herói nacional xapuriense.
Participaram da 6ª Imersão professores, biólogos, jornalistas,
artistas, ativistas da cidadania, servidores da Biblioteca da Floresta e da
Fundação de Cultura Elias Mansour (FEM), entre outros.
A atividade contou com a parceria da Associação dos Moradores
do Seringal Cachoeira, Secretaria de Estado de Extensão Agroflorestal e
Produção Familiar (Seaprof), Secretaria de Estado de Saúde (Sesacre), Secretaria
de Estado de Turismo e Lazer (Setul), Assessoria Especial para Assuntos Indígenas
do Governo do Acre, Biblioteca da Floresta, FEM, Grupo Gama Hydra de Astronomia
do Acre e Grupo de Radioamadores do Acre.
Para o moderador-geral da Sociedade Philosophia e diretor da
Biblioteca da Floresta, Marcos Afonso Pontes, idealizador das imersões, a
experiência visa dar uma resposta à crise do conhecimento que o mundo tem
vivido nos últimos anos.
“As pessoas não estão compreendendo onde estão e nem como
estão. Para vencermos essa crise epistemológica precisamos conhecer nosso tempo
e espaço originais. Viemos da floresta e, por isso, precisamos nos reencontrar
com a nossa história, cultura e identidade”, disse.
O “mergulho” nas
matas do Cachoeira
Durante a imersão, o grupo percorreu cerca de 15 quilômetros
de trilhas pela floresta. Guiados pelo seringueiro Nilson Mendes, primo de
Chico, os participantes conheceram dezenas de curiosidades sobre a natureza,
como as propriedades medicinais de plantas, madeiras nobres e o modo de vida de
diversos animais (onça, porquinho do mato, aranhas, serpentes, macacos, entre
outros).
Medindo 35 metros de altura e 25 de diâmetro, a maior
samaúma da região foi abraçada pelos participantes, que também se encantaram
com a árvore mais procurada no mundo, o jacarandá, e o cipó engana-patrão,
folha que, ao ser colocada na boca, produz tintura vermelha semelhante ao
sangue – a espécie era bastante utilizada nas colocações para enganar os
seringalistas.
Uma das trilhas foi realizada às 3h30 da madrugada para
simular a rotina árdua dos seringueiros nas estradas de seringa. Pouco antes do
amanhecer, o grupo “quebrou o jejum” na casa da dona Marlene Mendes, irmã de
Nilson. Foi ela quem idealizou um dos momentos mais marcantes dos últimos
empates: colocar mulheres e crianças na frente dos tratores e das armas de fogo
para “empatar” a derrubada da floresta e a retirada dos seringueiros e suas
famílias das colocações na tentativa, bem sucedida, de sensibilizar os
policiais e os capangas dos fazendeiros que se diziam donos dos seringais.
Índios e seringueiros
nos Diálogos da Florestania
Nas duas noites em que passaram na pousada ecológica do Seringal
Cachoeira, os participantes da imersão tiveram a oportunidade de conhecer mais
sobre o modo de vida dos índios e seringueiros.
No primeiro Diálogo da Florestania, o assessor especial para
Assuntos Indígenas do Governo, Zezinho Yube, da etnia Huni Kui, conhecida
popularmente como Kaxinawá, abordou a percepção de seu povo sobre o tempo e o
espaço.
Acompanhado pela esposa Paê e o filho Maiti, Yube, que
nasceu na Aldeia Três Fazendas, nas margens do rio Jordão, interior do Acre, disse
que seu povo não é refém do tempo e do relógio como acontece entre os não índios.
“Nas aldeias não existem horários, apenas a manhã, a tarde e a noite. O dia
parece ser muito mais longo do que na cidade porque quem faz o tempo somos nós.
Em relação ao espaço, não existe delimitação de território por pessoa. Cada
pedaço da aldeia pertence a todos os seus moradores”.
Na quarta-feira, 22, foi a vez de Nilson Mendes falar sobre
as lutas dos seringueiros contra os fazendeiros nos anos de 1970 e 1980 para
evitar a derrubada da floresta e a expulsão de seus moradores, passando pela história
dos movimentos sociais em Xapuri e Brasileia. “Quando a luta começou pra valer
nós não tínhamos mais nada. Nem casa, nem comida, nem sossego. Apenas a união e
o pensamento de que só arredaríamos o pé do seringal depois de mortos”.
Arte e ciência na
floresta
A 6ª Imersão ao Nosso Tempo e Espaço Originais contou também
uma programação cultural promovida pelos próprios artistas que participaram da
atividade. O poeta Raimundo Nonato recitou suas poesias e os músicos André
Araújo, Marcos Paulo Casas e Mateus Freitas, acompanhados pelas vozes de
Juliana Leon e Samuel Alves, tocaram grandes sucessos dos Beatles, Raul Seixas,
Os Mutantes, Legião Urbana e do acreano Pia Vila.
O diálogo entre a tradição e a modernidade falou mais alto
quando os grupos Gama Hydra de Astornomia e Radioamadores entraram em cena. Com
o telescópio instalado pelo astrônomo amador Jefferson Gonçalves de Paulo,
todos puderam ver a Lua, Saturno e a constelação de Escorpião com sua estrela mãe,
a Antares. Por meio da antena de rádio montada no seringal pelo radioamador
André Bracciali, foi feito contato com Córdoba, na Argentina; Montana, na
Bulgária; Iquique e Calama, no Chile; Colômbia; Salvador (BA); Campo Grande (MS);
Poços de Caldas (MG); Belém e Santarém (PA); Curitiba (PR); e Caxias do Sul
(RS).
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“Saí da cidade com a intenção de mudar um pouco os meus
sentimentos em relação ao mundo e a floresta me transmitiu uma tranquilidade
que poucas vezes havia sentido antes. Para mim essa viagem foi especial porque
pude retornar ao ambiente onde meus familiares viveram, pois sou filho de Huni
Kui com Apurinã, duas nações indígenas” - Alan Alves, estagiário da Biblioteca
da Floresta.
“Para mim, o que mais marcou esta imersão foram as histórias
contadas nos Diálogos da Florestania pelo Zezinho Yube e Nilson Mendes. Foi
muito bom estar em harmonia com a natureza e poder conhecer culturas muito diferentes
da nossa. O ambiente é perfeito e a recepção dos moradores do seringal foi
maravilhosa” – Rosely Sualdine, membro da Sociedade Philosophia.
“Tudo o que se passou nessa imersão ainda está se
processando dentro de mim, pois o tempo e o espaço de um poeta são diferentes, eles
parecem girar no sentido anti-horário. O ambiente rural e urbano são lugares completamente
distintos e descobri que necessito desses dois mundos. É por isso que já
agendei minha visita particular ao seringal ” – Raimundo Nonato, poeta e servidor
público.
(Por Leandro Chaves)

Que barato saber que um grupo tão interessante pode ir para um lugar tão interessante. Fiquei inspirado pelo pensamento de que é necessário voltar a lugares como o Seringal Cachoeira. Parabéns pela idéia e que as visitas se multipliquem!
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