segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Cineastas indígenas participam de debate na Biblioteca da Floresta

Escrito por Leandro Chaves - leandrochaves@pagina20.com   
24-Nov-2012
Publicado em Página 20


Mesa-redonda também contou com a presença do documentarista Vincent Carelli, do Vídeo

nas Aldeias


A Biblioteca da Floresta reuniu na tarde de ontem, em seu auditório, três dos principais cineastas índios do Estado para falarem sobre a importância do cinema indígena para as suas comunidades e para os chamados “homens brancos”. A mesa-redonda Vídeo nas Aldeias fez parte da programação da terceira edição do Festival Internacional Pachamama – Cinema de Fronteira, que acontece em Rio Branco desde segunda-feira.

Participaram do debate os realizadores audiovisuais Zezinho Yube Huni Kui, Ibã Huni Kui e Bebito Ashaninka. O evento também contou com a participação do documentarista Vincent Carelli, do projeto Vídeo nas Aldeias, que comemora 25 anos de fundação com a publicação de um livro, lançado na capital acreana após o debate.

Os dois membros da etnia Huni Kui, conhecida popularmente como Kaxinawá, consideram as filmagens nas aldeias um instrumento capaz de preservar as tradições do povo, que é o mais numeroso do Estado. Além disso, acreditam que as imagens servem para apresentar a outras etnias e moradores das cidades sua realidade e modo de vida.


ÍNDIOS consideram as filmagens nas aldeias um instrumento capaz de preservar as tradições do povo


“Senti todo o potencial de uma câmera quando vi os jovens da aldeia cheios de ânimo para recuperarem as tradições do nosso povo, como pinturas, músicas, festas e danças. Isso possibilitou, por exemplo, a retomada do festival Katxanawa, há muito tempo não realizado na minha terra”, afirmou Zezinho, que é secretário especial para Assuntos Indígenas do governo do Acre e autor de diversos filmes exibidos Brasil e mundo afora.
Para Ibã, que tem um vasto trabalho de pesquisa sobre a religiosidade de seu povo, “os filmes servem para resgatar esse tesouro que é a nossa tradição, mudando, inclusive, a visão negativa que muitos têm sobre a ayahuasca [bebida sagrada dos povos indígenas do Acre, também conhecida como Santo Daime] e sobre a nossa medicina tradicional”.

Ibã é autor de um dos trabalhos indígenas mais reconhecidos no Acre e em outras partes do Brasil e do mundo. Ele transcreveu e gravou em CD músicas cantadas pelos Huni Kui em seus rituais sagrados com o uso da ayahuasca. O resultado pode ser conferido no livro Huni Meka: Cantos do Nixi Pae, presente no acervo da Biblioteca da Floresta.
“Para nós, Ashaninka, o visual é mais forte que a escrita. O vídeo causa mais impacto”, disse Bebito Pianko, que desenvolve trabalhos audiovisuais desde 1998, quando conheceu Vincent Carelli. O indígena lançou, na quinta-feira, no Pachamama, o seu mais recente trabalho, “No Tempo do Verão”, um recado para as crianças de sua aldeia.

Memória e visibilidade


De acordo com Vicent Carelli, a memória e a visibilidade são os motivos que levam os índios a trabalharem com cinema em todo o país. Ele afirmou que o processo de formação de professores indígenas na década de 1980 pela ONG Comissão Pró-Índio do Acre (CPI/AC) foi essencial para o início das produções cinematográficas indígenas.

“Foi um trabalho que possibilitou aos índios o desenvolvimento de uma consciência crítica sobre seu processo histórico. Eles também se tornaram pesquisadores de sua própria cultura e o vídeo acabou se tornando uma ferramenta a mais nesse processo de divulgação das suas realidades em toda a sua complexidade”, disse o documentarista.

Carelli veio ao Acre pela primeira vez na década de 1980. De lá para cá desenvolveu diversas atividades de formação e divulgação dos trabalhos desenvolvidos pelos próprios índios. Seu livro, Vídeo nas Aldeias: 25 anos, traz um pouco desse passado.

Com aproximadamente 250 páginas, o material reúne fotos, depoimentos e entrevistas com as personalidades envolvidas nessas duas décadas e meia de história da entidade.

“O livro é uma verdadeira obra de arte. É impossível não vê-lo com o olhar cinematográfico quando se folheia”, disse o diretor da Biblioteca da Floresta, o professor e jornalista Marcos Afonso, que também comentou sobre a produção audiovisual indígena: “São roteiros de identidade e de valorização de suas tradições, transcendências, cosmologias e formas como enxergam o mundo a sua volta”.

Na Biblioteca da Floresta é possível ter acesso à boa parte dessas produções indígenas locais e nacionais. O material se encontra no térreo da instituição e pode ser assistido no primeiro piso, espaço que reúne vários computadores disponíveis aos usuários.

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