Escrito por Leandro Chaves - leandrochaves@pagina20.com
Publicado em Página 20
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| 22-Nov-2012 | |
Anne Makepeace e Alan Baker apresentaram ontem o filme “Ainda Estamos Aqui” no Festival Pachamama
Em meados da última década, importantes cineastas visitaram uma aldeia indígena esquecida pelos “homens brancos” para documentar o ousado e inédito processo de recuperação da língua nativa há muito tempo esquecida pelos membros do povo.
A história deste feito cinematográfico caberia, perfeitamente, na realidade amazônica, inclusive no Acre, onde, no mesmo período, algumas etnias revitalizaram seus dialetos, falados apenas pelos mais velhos – ação também documentada, muitas vezes, pelos próprios moradores das aldeias. Mas o caso aconteceu a sete mil quilômetros daqui, mais especificamente nos Estados Unidos, Sudeste de Massachusetts.
Mas o que isso tem a ver com o Acre? Se a semelhança entre os dois fatos não foi suficiente para responder, aí vai um bom motivo para se estabelecer uma relação mais que evidente: o resultado das filmagens com os índios Wampanoag foi exibido ontem em terras acreanas – ou florestas, como preferirem. E com um detalhe a mais: Anne Makepeace e Alan Baker, diretora e codiretor do documentário, respectivamente, fizeram questão de estarem presentes na exibição do filme, intitulado “Ainda Estamos Aqui” (We Still Live Here, no original, e Âs Nutayuneân, na língua Wampanoag).
O trabalho, lançado em 2010 nos EUA, fez parte da programação da terceira edição do Festival Internacional Pachamama – Cinema de Fronteira, que começou na última segunda-feira (19), em Rio Branco. Com exibições no Cine Teatro Recreio, no Calçadão da Gameleira, e nos bairros da cidade, o evento reúne, principalmente, produções independentes do Brasil e dos demais países da América Latina – o documentário norte-americano, neste caso, foi uma rara e feliz exceção.
Com pouco mais de 80 minutos de duração, “Ainda Estamos Aqui” mostra o trabalho de Jessie Little Doe na aldeia dos Wampanoag. Foi ela a principal responsável pelo ensino da língua nativa aos descendentes do povo. Segundo os registros, esta foi a primeira vez em que um dialeto sem falantes foi ressuscitada nos EUA.
“Um dos nossos maiores desafios foi convencer Jessie a ser a personagem principal do filme. O bom é que no final deu tudo certo não só com ela, mas com todo o povo, pois uma das nossas preocupações era ganhar a confiança dos Wampanoag e permanecermos na aldeia sem as dificuldades impostas pela diferença cultural. A receptividade foi maravilhosa”, explica a diretora do filme, que retorna aos EUA hoje.
Informar para formar
Para o codiretor do filme, Alan Baker, a vinda ao Acre pode servir como inspiração para que outros cineastas brasileiros e acreanos valorizem as culturas dos povos tradicionais.
“Nossa visita ao Brasil foi muito interessante porque por aqui também existe esse mesmo tipo de problema que documentamos no filme. Descobrimos muitos povos indígenas cuja língua está em processo cada vez maior de extinção e o documentário pode servir também como exemplo para que se busque sua recuperação”, disse.
Anne Makepeace compartilha o mesmo pensamento. De acordo com ela, o filme pode ter a capacidade de conscientizar os espectadores sobre a importância de não se deixar perder a cultura tradicional de um determinado povo. “Mostramos não apenas o processo de recuperação da língua, mas também as razões para este problema”.
Para isso, a equipe teve de retratar uma época histórica que se inicia no século 17 – momento em que os Wampanoag ajudaram os primeiros colonos ingleses na América, os Peregrinos (ou Pilgrins), a sobreviverem – e vai até a extinção da língua, há mais de 100 anos, quando morreu o último falante do dialeto nativo do povo.
“Como não tínhamos materiais para visualização, contratamos uma animadora para criar todas as sequências históricas do documentário”, explica a diretora, que também lista como desafio retratar a linguagem por meio de imagens.
Ao lado de outros 19 grupos de documentaristas, Baker e Makepeace participam de um projeto financiado pelo governo dos EUA em parceria com a Universidade de Califórnia para a visita a países com o objetivo de apresentar seus filmes. O codiretor de “Ainda Estamos Aqui” já viajou, por exemplo, à Colômbia, Cazaquistão e Malawi, na África.
Dos Wampanoag aos Kaxinawá
Os dois diretores aproveitaram a vinda ao Acre para conhecer, na última terça-feira (20), uma das aldeias que existem no Estado. Os Kaxinawá da Colônia 27, em Tarauacá, a 400 km de Rio Branco, receberam a visita dos cineastas, que foram acompanhados dos membros da Embaixada Norte-Americana no Brasil, John Matel e Angelina Smith, e do diretor da Biblioteca da Floresta, o professor e jornalista Marcos Afonso.
ANNE Makepeace é, há 25 anos, uma renomada cineasta de premiados filmes independentes
Ontem, eles conheceram a Biblioteca da Floresta, no Parque da Maternidade, espaço que reúne vasto acervo e exposições sobre a diversidade ambiental e cultural do Acre.
Makepeace e Baker se mostraram impressionados com os locais visitados. “Interessante ver a grande quantidade de jovens utilizando os espaços da biblioteca para aprenderem sobre as coisas de sua própria terra. O acervo indígena chamou muito minha atenção”, afirmou a cineasta, que também destacou a organização dos Kaxinawá da Colônia 27.
Baker fez questão de dizer que ainda não conheceu “nenhuma biblioteca como essa em lugar nenhum do Brasil. Percebi que o local representa um forte instrumento para a defesa dos direitos e das culturas indígenas. Tudo tratado com muita seriedade”.
“Somos não apenas um espaço de memória, mas também de sonhos. Acreditamos que vivemos uma crise na produção do conhecimento e uma das saídas para este problema é estabelecer um diálogo entre a tradição dos saberes da floresta com a modernidade do conhecimento científico. E é para isso que essa biblioteca existe”, concluiu Marcos Afonso.
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quinta-feira, 22 de novembro de 2012
Cineastas americanos exibem documentário no Acre
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