No terceiro e último
artigo sobre radioamadorismo, a Liga de Amadores Brasileiros de Rádio Emissão
do Acre (Labre-AC), um dos grupos temáticos da Biblioteca da Floresta, resgata
a memória de Robert Landell de Moura, o grande inventor do transmissor de ondas
(hertzianas ou landellianas) e do telefone e telégrafo sem fio. Confira!
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Padre Roberto Landell
de Moura: O gênio esquecido
Roberto Landell de Moura nasceu no dia 21 de janeiro de
1861, na cidade de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Estudou no Colégio dos
Jesuítas, em São Leopoldo antes de se transferir, em 1879, para o Rio de
Janeiro, para estudar na Escola Central, antiga Academia Real Militar, onde
passou apenas alguns meses, tendo sido convencido por seu irmão Guilherme a
seguir a vida eclesiástica e se mudar para a Itália.
Em Roma, frequentou o Colégio Pio Americano e também a
Universidade Gregoriana, como aluno de Física, Química, e Teologia, sendo
ordenado sacerdote em 28 de novembro de 1886. Seguindo a aptidão para os
estudos da eletricidade, construiu o primeiro transmissor sem fio para a
transmissão de mensagens em 1892, para pouco tempo depois, em 1894, realizar a
primeira transmissão pública da propagação da voz humana (por meio de ondas
hertzianas), cobrindo uma distância de oito quilômetros entre o alto da Avenida
Paulista e o alto de Sant'Anna, em São Paulo.
Na época, Padre Landell de Moura chegou a declarar:
“Quero mostrar ao mundo que a Igreja Católica não é inimiga
da Ciência e do progresso humano. Indivíduos, na Igreja, podem, neste ou
naquele caso, haver-se oposto a esta verdade; mas fizeram-no por cegueira. A
verdadeira fé católica não a nega. Embora me tenham acusado de participante com
o diabo e interrompido meus estudos pela destruição de meus aparelhos, hei de
sempre afirmar: isto é assim e não pode ser de outro modo... Só agora
compreendo Galileu exclamando: E pur se muove!” (FORNARI, 1960)
Destacando a importância do evento, o Jornal do Comércio de
10 de junho de 1900 escreveu:
"No domingo próximo passado, no alto de Santana, cidade
de São Paulo, o Padre Landell de Moura fez uma experiência particular com
vários aparelhos de sua invenção, no intuito de demonstrar algumas leis por ele
descobertas no estudo da propagação do som, da luz e da eletricidade através do
espaço (...), as quais foram coroadas de brilhante êxito. (...) Assistiram a
esta prova, entre outras pessoas, o Sr P.C.P. Lupton, representante do Govêrno
britânico, e sua família".
Entre 1903 e 1904, Landell de Moura viaja para os Estados
Unidos buscando conseguir as patentes de três inventos: o transmissor de ondas
(hertzianas ou landellianas) obtida em
11 de outubro de 1904 sob o número 771.917; o telefone sem fio, obtida em 22 de
novembro de 1904 sob o número 775.337; e o telégrafo sem fio, também obtida em
22 de novembro de 1904 sob o número 775.846. A patente brasileira do aparelho
do padre Landell, obtida em 9 de março
de 1901, recebeu o número 3.279.
Ao retornar dos Estados Unidos ao Rio de Janeiro, em 1905,
Padre Landell de Moura solicitou ao Presidente da República, Dr. Rodrigues
Alves, dois navios da esquadra de guerra para demonstrar os seus inventos que
revolucionariam a comunicação. Um oficial de gabinete do Presidente fica
boquiaberto ao saber que o padre falava em transmissão a qualquer distância e
aconselha o Presidente a não permitir o experimento, achando que o padre era
maluco.
Mas Padre Landell de Moura já ganhara reconhecimento
internacional e prova disso vem do Jornal La Voz de Espanã, editado em S.
Paulo, no dia 16 de dezembro de 1900 que diz:
"(...) quantas e que amargas decepções experimentou
Padre Landell ao ver que o governo e a imprensa deseu país, em lugar de o
alentarem com aplauso, incentivando-o a prosseguir na carreira triunfal,
fizeram pouco ou nenhum caso de seus notáveis inventos(...)".
Sem apoio institucional e governamental e sob forte pressão
da Igreja, acabou por destruir seus aparelhos e encaixotar seus livros,
cadernos e documentos, optando por dedicar-se exclusivamente ao sacerdócio. O
Monsenhor Roberto Landell de Moura, precursor da transmissão sem fio e esquecido inventor
brasileiro, morreu anonimamente, em 30 de julho de 1928, aos 67 anos de idade,
num modesto quarto da Beneficência Portuguesa, de Porto Alegre, cercado apenas
por seus parentes e poucos amigos fiéis e devotados.
Enfim, o
reconhecimento nacional
O Exército Brasileiro concedeu em 2005 a denominação
histórica de "Centro de Telemática Landell de Moura" ao 1° Centro de
Telemática de Área, uma organização militar de telecomunicações, situada na
cidade de Porto Alegre.
A Fundação Educacional Padre Landell de Moura, batizada em
homenagem ao padre-cientista, bem como o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento
em Telecomunicações (CPqD), criado pela Telebrás em 1976, também batizado de
"Roberto Landell de Moura".
Em 27 de Abril de 2012, foi inscrito no Livro dos Heróis da
Pátria o nome do Padre Roberto Landell de Moura.
(André Bracciali,
Alan Bernardo Arruda Bisso, Alan dos Santos Pimentel, Aldo Silva da Cruz,
Felipe Gangale Barco e Irving Foster Brown)
Referências
FORNARI, E., “O Incrível Pe. Landell de Moura”. Editora
Globo, São Paulo, Brasil (1960).
FORNARI, E., “O Incrível Pe. Landell de Moura”. Biblioteca
do Exército Editora, Rio de Janeiro, Brasil (1984).